domingo, 21 de junho de 2009

Temas de Cortázar sugeridos pelo Prof. Fábio

INSTRUÇOES PARA CANTAR

No chuveiro ligado e bem quente, a mágica da água encobria a nostalgia da canção.
Não era bem uma canção, mas a tentativa de vomitar sapos em notas musicais.
O coração acelerava e gritava conforme a viscosidade da música quase fúnebre, que surgia no vapor que encobria o espaço.
As lembranças funestas de locais nús e obscuros de rios e barcos fantasmas, acompanhavam o galope de cavalos selvagens, e escorria e corria como a água do chuveiro.
O canto da Ave Maria surgiu como a salvação de lembranças de um tempo onde a fé ainda ansiava em preencher terras inabitadas do mal.
Minhas fogueiras, naquele tempo ainda estavam apagadas, e Schumann surgia com a Ave Maria semelhante a um quadro clássico e belo...
Um ruído forte, quando uma nota aguda se desprendeu e voou na esperança de aplacar a confusão de objetos, de cacarecos frios e convulsivos da mente.
O espelho se partiu como a alma sofrida e apunhalada, de um ser obscuro e solitário, que tentava retirar as dores da alma na música e na água do chuveiro.
Não dava mais para mirar a nudez do corpo e da alma refletida na face sombria de um cantor...
Os solfejos se desprendiam sozinhos de cadernos molhados, e as notas musicais se enroscavam em meus cachos de cabelos escorregadios, ressoando vazios em minha cabeça...




INSTRUÇÕES PARA CHORAR

Esperando a oferta de um lenço para enxugar as lágrimas silenciosas, Luíza olhava de soslaio por entre os dedos que encobria o rosto, os presentes ao velório de Osvaldo.
Tinha urgência de chorar e mostrar a todos os presentes que estava triste. Mas, não era tão fácil assim...
Precisava procurar em seu fingido interior, momentos de tristeza em cenas cinematográficas para dar suporte às lágrimas impuras e falsas.
Precisava fabricar em seu interior e mostrar em seu exterior o sofrimento através de lágrimas abundantes em sua face.
Lágrimas fingidas, pois o coitado do Osvaldo, sempre enganado, jazia agora coberto de flores.
Ao encobrir o rosto com as mãos, com as palmas voltadas para dentro, sentia o perfume do Mateus, que lhe apertara longamente suas mãos, amparando-a naquele instante de sofrimento.
Lembrava-se de que sempre chorava quando criança para conseguir alguma coisa.
Chorar em sua vida era um meio e um artifício para enganar, e Osvaldo fazia parte dos bobos que acreditavam em suas lágrimas.
O crocodilo de seu interior não se cansava de surgir através de suas lágrimas

Maria Regina de Oliveira Becker 17/06/09

2 comentários:

  1. Regina

    A fumaça que abre instruções para cantar já cria um clima, um espaço, uma cena de imaginário-real, sonho-concreto, que de pronto deixa preparado o lugar para o poema se vingar!

    Boa também chorar em sua vida era um artifício para enganar, bem forte.

    Parabéns!

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  2. Li seu conto - A deliciosa no site da Piauí, gostei...rss...

    Adorei o título

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