sexta-feira, 3 de julho de 2009

A ÚLTIMA SERRA D'ÁGUA - VERSÃO 2

A ÚLTIMA SERRA D’ÁGUA


27.06.2009,
em Passa Quatro. Versão 2.
Baseado no comentário do Fábio,
mantive uma parte ainda maior do texto sem dizer o que serra d’água,
só “desvendando o mistério” no final.
Fiz algumas correções de Português e pequenos ajustes.




No carro o corretor de imóveis, sentado ao meu lado, indicava o caminho. Fomos pela estrada principal e saímos à direita, no cruzamento de Tronqueiras, passando por uma curta rua espremida entre a igreja e a escola do bairro. A igreja amarela, com a tradicional cruz no alto da sua única torre, é ladeada por uma pequena praça que tem no seu centro algo que lembra um coreto. A escola, que já foi um símbolo da cultura, também é antiga. Tem o estilo das escolas públicas da década de 60, é pequena e está mal cuidada. A rua espremida deságua numa estradinha de terra, que alguns chamam de Estrada do Quilombinho e outros a chamam de Estrada do Lindolfinho. Terrível foi esta primeira impressão. Como pode uma estrada ter dois nomes? Entramos à esquerda e seguimos a estradinha de terra. Rodamos pouco e logo o corretor avisou que estávamos chegando.

O portão estava aberto. Era como se a chácara estivesse de braços abertos dando-nos as boas vindas. Entramos e fomos recebidos pelo senhor José, um homem moreno claro, sorriso largo, pequena estatura, olhos brilhantes, fala mansa e gestos firmes. Mostrou toda a propriedade com grande orgulho, pois, afinal, tudo ali tinha sido ele que construiu, que plantou, que fez ou mandou que fizessem. Sabia a história de cada prego, de cada pedra, de cada planta, do que ia bem ali e do que não se adianta fazer.

Andando pelo pomar vi que as laranjeiras estavam carregadas com pequeninas promessas de laranjas. As flores haviam sido fecundadas e prometiam uma boa carga para o próximo inverno. A parreira estava com muitos cachos pequeninos e também prometia uva farta para o próximo Natal, enquanto que as duas jabuticabeiras estavam carregas e muito em breve estariam servindo-nos um lauto banquete.

Em outubro o negócio foi fechado e o Rancho JM passou a chamar-se Chácara Raio Dourado, o lugar onde passei a dedicar todo o meu tempo livre dos meus finais de semana. O verão foi longo e muitas foram as chuvas naquele ano. As jabuticabas foram praticamente comidas pelos pássaros, as uvas foram atacadas pelos insetos e não chegaram a madurar. Contudo, as laranjeiras seguiram firmes e, semana a semana, foram lentamente desenvolvendo-se.

Março encerrou as chuvas do verão e passei a ter que jogar água com a mangueira de jardim no pomar, de manhã e à tarde, nos dias que estava na chácara. A lima da pérsia foi a primeira a dourar. Todas as outras estavam verdes opacas, crescendo, crescendo, e as limas da pérsia começaram a nos brindar com os primeiros frutos. Para minha surpresa elas não eram amargas, como as que normalmente eu comprava no supermercado.

Em abril os dias já estavam mais curtos e as manhãs frias traziam a lembrança do verão que havia se acabado.

O vento frio começou a soprar nas primeiras tardes de Maio anunciando a aproximação do inverno. Os ipês roxos floriram e, então, não havia mais dúvida: o calendário poderia dizer que o inverno oficialmente entraria em junho, mas já era inverno.

E no frio de um fim de tarde de sexta-feira, ao chegar à chácara, descobri que uma laranjeira que ficava isolada, do caminho do pomar, tinha os primeiros frutos maduros. Saborosos, mas ainda não tão doces.

Com o passar das semanas as outras laranjeiras também estavam carregadas de frutos maduros. Cada uma ofertava o que tinha de melhor. A acidez da laranja baía, o gosto típico da lima da pérsia e o sumo vermelho de uma laranja que não sei o nome. Mas, na encosta que desce da parreira para o pomar, no meio do gramado, reinava solitária a menina dos olhos, ou melhor, menina do paladar: aquela laranjeira solitária. Carregada, galhos envergados, madurando suavemente seus frutos. Parece que ela havia feito um pacto conosco: a cada semana maduravam os frutos que conseguiríamos consumir naquele final de semana. E cada semana os frutos estavam mais saborosos.

Trabalhar duro na chácara, roçar o mato, aparar a grama, arrumar uma coisa e outra, mover pedras, podar arbustos, enfim, cuidar dos afazeres rurais é, para mim, mergulhar numa vida extremamente saborosa, que me enche de alegria e entusiasmo. Um dos momentos prediletos é aquele em que me sentindo cansado da dura lida vou até uma laranjeira, colho a mais bonita fruta, sento-me sobre uma das pedras que cercam o caminho, tiro o canivete do bolso e, solenemente descasco a laranja.
A lâmina afiada do canivete novo entra suavemente na casca da fruta e, em movimento circular, a casca vai lentamente caindo enquanto vai, pouco a pouco, aparecendo o bagaço esbranquiçado que esconde um líquido precioso.
A casca cai silenciosamente no chão, mudo a posição da laranja e preparo o canivete para o golpe final: cortar a laranja ao meio.
Num gesto de gratidão elevo meu pensamento à Vida. Olho o céu azul recortado de nuvens brancas. Sinto gotas de suor descer pelo rosto. Retiro do bolso um pequeno pano branco e enxugo o suor. Fecho o canivete e devolvo-o ao bolso direito. Abro a boca e ao mesmo tempo em que meus dentes ferem, pela primeira vez, a primeira metade de uma laranja, fecho os olhos para melhor sentir o prazer e a satisfação daquele momento. O sumo desce garanta abaixo, saciando a sede. Abro os olhos e a boca. Outra mordida abocanha sedenta no outro lado da laranja. Agora já não existe mais calma, entrego-me a sugar todo o caldo, querendo acabar de uma só vez com tudo aquilo e, ao mesmo tempo, querendo que aquele momento dure uma eternidade.
Sobrou um bagaço seco na mão direita enquanto a mão esquerda segura, pacientemente, a outra metade da mesma laranja, intacta como uma virgem no altar. Levanto-me tranquilamente e caminho em direção ao monte de capim em decomposição, onde lanço o primeiro bagaço e, caminhando em direção ao trabalho, vou distraidamente chupando a outra metade da laranja. Sem me aperceber tenho outro bagaço seco na mão, que é atirado a outro monte.

E agora aqui, no meio da cidade grande, num apartamento no nono andar, estou eu descascando a última das laranjas serra d’água, a última fruta daquela laranjeira solitária. Foi colhida no último final de semana e agora já está meio murcha. Perdeu o viço, perdeu um pouco do cheiro. Descascando e lembrando disto tudo. Olho pela ampla janela e vejo carros, ônibus e caminhões que trafegam pela maior artéria de transporte terrestre deste país, a Rodovia Presidente Dutra. Estou de pé e a casca caiu sobre a pia. O sabor doce do caldo suculento escorre lentamente garganta adentro. Terminada a primeira metade permaneço imóvel sentindo o sabor doce penetrar-me a alma. Num movimento sereno troco o bagaço da mão direita pela última metade, a última virgem, que se ofereceu ao altar do meu prazer. Consciente e delicadamente levo-a aos lábios numa atitude de extrema gratidão por todos os frutos que aquela distante árvore ofereceu neste ano. Agora nas mãos unidas os dois últimos bagaços secos. Ando lentamente até o cesto de lixo orgânico, com o pé direito abro a tampa e lanço-os fora. Definitivamente, acabou a estação das laranjas para mim neste ano. Agora espero ardentemente pelas flores dos ipês amarelos que anunciarão o fim do inverno.


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